A Negra é uma pintura da artista Tarsila do Amaral feita em óleo sobre tela. Não se sabe ao certo quando Tarsila finalizou o quadro, mas acredita-se que tenha sido no ano de 1923. A Negra é um dos quadros mais conhecidos da pintora e se tornaria, depois de décadas, um ícone do movimento modernista.
Atualmente, A negra compõe o acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

Tarsila do Amaral ela própria nos explica que o quadro d’A Negra teria uma considerável influência sobre sua obra posterior. O quadro foi pintada no que se convencionou chamar de período Pau Brasil da artista, anterior ao famoso e aclamado período Antropofágico. Em um texto para a Revista Anual do Salão de Maio, a pintora remete às raízes do movimento Antropofágico:
O movimento antropofágico teve a sua fase pré-antropofágica, antes da pintura Pau-Brasil em 1923, quando executei em Paris um quadro bastante discutido, a “Negra”, figura sentada com dois robustos toros de pernas cruzadas, uma arroba de seio pesando sobre o braço, lábios enormes, pendentes, cabeça proporcionalmente pequena. A “Negra” já anunciava o antropofagismo.1
A crítica de arte Aracy de Amaral defende que A Negra foi vista pelo pintor francês Fernand Léger quando Tarsila demonstrou interesse em iniciar um estágio com o artista. Aracy se baseia em uma carta de Tarsila para sua família, na qual a pintora dá conta de seu encontro com Léger. Segundo ela, o francês teria considerado a pintora brasileira já “muito adiantada” além de ter gostado “particularmente” do quadro d’A Negra, manifestando inclusive o desejo de que seus alunos o vissem.

Em uma de suas últimas entrevistas, Tarsila do Amaral conta sobre as memórias de infância que estão na origem de A Negra:
Porque eu tenho reminiscências de ter conhecido uma daquelas antigas escravas que moravam lá na nossa fazenda, e ela tinha os lábios caídos e os seios enormes, porque, me contaram depois, naquele tempo as negras amarravam pedras nos seios para ficarem compridos e elas jogarem para trás e amamentarem a criança presa nas costas.2
Recepção e impacto d’A Negra
O escritor e poeta francês Blaise Cendrars foi outro estrangeiros dentre os maiores admiradores da obra de Tarsila. Compartilhando o interesse e mesmo fascinação que parte dos artistas, poetas e outros membros da intelligentsia europeia nutria pela cultura negra e indígena, Cendrars se tornou amigo e divulgador dos quadros de Tarsila do Amaral.
O poeta viajou pelo Brasil em 1924 visitando os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas na companhia de Tarsila e seu então marido Oswald de Andrade. Tamanho era seu apreço pelo trabalho da brasileira que Cendrars decidiu colocar a figura como ilustração de capa de seu livro de poemas Feuilles de Route . Em 1925, Mário de Andrade faz uma crítica ao Feuilles e comenta, entre o humor e a revolta:
Eu principiei tendo ciúmes de Cendrars por causa daquele desenho da dona Tarsila do Amaral que vem na capa de Le Formose. Que negra tão preta aquela com a bonita folha de bananeira as costas! Pensei: É isso, um zanzador dum francês vem no Brasil e arranja tudo com facilidade, arranja assunto, 5 voluminhos de verso e arranja até desenhos de Dona Tarsila do Amaral. Pois então a gente que vive faz tanto! no mesmo assunto e trata dele com bem mais patriotismo só arranja ser chamado de futurista. está bom! 3
Mário de Andrade seria um dos que possuiria um desenho preparatório para A Negra em sua coleção. Rascunhos da obra fazem parte de diferentes acervos.

Outro pensador brasileiro a comentar o quadro seria o jornalista José Severiano de Rezende. Em um texto sobre o trabalho de Tarsila, José Severiano comenta em paralelo três de seus quadros: A Negra, Négre Adorant e Anjos: “
E que típicas rutilâncias não têm aquele negro absorto na sua devota oração e a planturosa mucama cujo seio caído foi o saco de abundância das maternidades idas. […] Pois bem, Tarsila ama esse povo e o compreende. Se ela não esboçou ainda o Carnaval no Rio, retrata com amor a antiga mãe-preta, com os seios repletos de ternura […] É, sem dúvida, a arte bebendo nas fontes múltiplas da raça – única inspiradora…”4

Interpretações de A Negra de Tarsila do Amaral
Em artigo sobre o quadro, a professora e pesquisadora Vera Pugliese vê em A Negra um desafio às correntes dominantes de representação da mulher e em especial da mulher negra vigentes até então. A Negra de Tarsila não está trabalhando como as de Portinari ou as de Modesto Brocos. Ela também não é lasciva e sensual como as de Di Cavalcante.
Pugliese defende que a obra é uma ruptura radical com convenções e expectativas estéticas com relação às mulheres em geral e as negras em particular.5 A pesquisadora concorda com Aracy do Amaral, grande biógrafa de Tarsila, que disse sobre o quadro:
“A Negra lhe conferiu um lugar de pioneira de uma arte brasileira, ainda não realizada até então, pela primeira vez apresentava-se um negro numa tela com total destaque e força, conscientização em sua projeção“.6
Silvia Meira por sua vez nos oferece um contra ponto vê em A Negra um retrato da opressão e subalternidade que a população escravizada – e em especial as mulheres – era mantida.7
Artigos Relacionados
Bibliografia sobre A Negra de Tarsila do Amaral
CARDOSO, Renata Gomes. A Negra de Tarsila do Amaral: criação, recepção e circulação. VIS Revista do programa de pós graduação em Arte da UnB, Vol. 15, n.2, dezembro de 2016, Brasília. Aqui.
COELHO, Edinaldo Gonçalves. A busca da Identidade nacional no modernismo brasileiro: das palavras de Mario de Andrade às pinceladas de Tarsila do Amaral. Dissertação de Mestrado. Fundação Universidade Federal Rondônia. Porto Velho. 2018. Aqui
FERREIRA, Thaís dos Reis. A negra: Diálogos entre a obra de Tarsila e o feminismo negro. TCC de especialista em mídia, informação e cultura. ECA-USP. 2017. Aqui.
FLORES, M.B.R.; PETRY, M.B. Na caverna de Tarsila: sobrevivências do primitivo como presença do não colonial. MODOS. Revista de História da Arte. Campinas, v. 3, n.1, p.115-132, jan. 2019 Aqui
MEIRA, Silvia. A Negra de Tarsila do Amaral: escuta da condição da afrodescendente na formação do povo brasileiro. Anais do XXXVIII Congresso do CBHA. Florianópolis, 2018. Aqui.
SOARES, Mayara Santos Carvalho. Os limites da Antropofagia: notas sobre a identidade nacional na arte. Trabalho de Conclusão de curso. Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos. 2021. Aqui
PUGLIESE, Vera. A Negra, de Tarsila do Amaral, e os olhares na História da Arte no Brasil. III Encontro Nacional de Estudos da Imagem. 2011. Londrina. Paraná. Aqui.
Referências
- FLORES, M.B.R.; PETRY, M.B. Na caverna de Tarsila: sobrevivências do primitivo como presença do não colonial. MODOS. Revista de História da Arte. Campinas, v. 3, n.1, p.115-132, jan. 2019. p. 122. ↩︎
- Declaração da pintora em entrevista a Leo Gilson Ribeiro para a revista Veja de 1972 . Aqui. ↩︎
- CARDOSO, Renata Gomes. A Negra de Tarsila do Amaral: criação, recepção e circulação. VIS Revista do programa de pós graduação em Arte da UnB, Vol. 15, n.2, dezembro de 2016, Brasília. p. 98. ↩︎
- CARDOSO, Renata Gomes. A Negra de Tarsila do Amaral: criação, recepção e circulação.. p. 103 ↩︎
- PUGLIESE, Vera. A Negra, de Tarsila do Amaral, e os olhares na História da Arte no Brasil. III Encontro Nacional de Estudos da Imagem. 2011. Londrina. Paraná, p. 2890. ↩︎
- ↩︎
- MEIRA, Silvia. MEIRA, Silvia. A Negra de Tarsila do Amaral: Escuta da condição da afrodescendente na formação do povo brasileiro. Anais do XXXVIII Congresso do CBHA. Florianópolis, 2018. ↩︎